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Minha homenagem ao mais admirado dos poetas por mim, António Gedeão!


António Gedeão
Pedra Filososal

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.


Gota de Água

Eu, quando choro,
não choro eu.
Chora aquilo que nos homens
em todo o tempo sofreu.
As lágrimas são as minhas
mas o choro não é meu.



Dez réis de esperança

Se não fosse esta certeza
que nem sei de onde me vem,
não comia, nem bebia,
nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos á boca
e viesse o que viesse.
Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto,
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram, e não perceberam,
essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule, flutuando
no pranto do desencanto,
se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.

Poema do alegre desespero

Compreende-se que lá para o ano três mil e tal
ninguém se lembre de certo Fernão barbudo
que plantava couves em Oliveira do Hospital,

ou da minha virtuosa tia-avó Maria das Dores
que tirou um retrato toda vestida de veludo
sentada num canapé junto de um vaso com flores.

Compreende-se.

E até mesmo que já ninguém se lembre que houve três impérios no Egipto
(o Alto Império, o Médio Império e o Baixo Império)
com muitos faraós, todos a caminharem de lado e a fazerem tudo de perfil,
e o Estrabão, o Artaxerpes, e o Xenofonte, e o Heraclito,
e o desfiladeiro das Termópilas, e a mulher do Péricles, e a retirada dos dez mil,
e os reis de barbas encaracoladas que eram senhores de muitas terras,
que conquistavam o Lácio e perdiam o Épiro, e conquistavam o Épiro e perdiam o Lácio,

e passavam a vida inteira a fazer guerras,
e quando batiam com o pé no chão faziam tremer todo o palácio,
e o resto tudo por aí fora,
e a Guerra dos Cem Anos,
e a Invencível Armada,
e as campanhas de Napoleão,
e a bomba de hidrogénio,
e os poemas de António Gedeão.

Compreende-se.

Mais império menos império,
mais faraó menos faraó,
será tudo um vastíssimo cemitério,
cacos, cinzas e pó.

Compreende-se.
Lá para o ano três mil e tal.

E o nosso sofrimento para que serviu afinal?



Amostra sem valor


Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível:
com ele se entretém
e se julga intangível.


Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.


Eu sei que as dimensões impiedosos da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo. 
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Um pouco do meu amargo.

Não sabia Gedeão que em 2010 ( já?) o sonhar seria pecado
A sinceridade seria escarneada
Que o amor seria substituído por prazeres
Os conceitos de valores perderiam o valor,
assim como a moeda corrente
Que poucos seriam os que podiam gozar de amizades sinceras,
 que as demonstrações de afetos seriam raras
Que lobos vestiriam vestes de cordeiros
Poucos seriam os braços que se abririam ao abraço
Que as desilusões feririam os corações tanto quanto as bombas
Que haveria tanta solidão, e as pessoas não amariam mais,
que o sexo pra alguns seria virtual (imaginem como é isso, se puderem, eu não consegui).
Que as pessoas tinham congelado o coração, e amor banalizou-se nesta geração.
Com certeza António Gedeão eles não souberam sonhar teu sonho não.
Valvesta






3 comentários:

Maria Luisa Adães disse...

E tanta beleza que Gedeão sonhou e
escreveu.

Foi torpedeada pela falta de:

sentimentos, sinceridade, amizade,
amor, lembranças ternas e doces,
e tanto mais que minha alma, neste
instante, esquece.

E o amor se banalizou
E perdeu o valor...

Esse pouco, ou muito, do seu amargo
É a realidade de nossos dias
E os sonhos de Gedeão se perderam,
nesta multidão que deixou de viver,

Por Não Saber!...

Gostei muito de seu dizer,

Mª. Luísa

Por que você faz poema? disse...

Valeu pela homenagem,
são ótimos os poemas.

Sonia Pallone disse...

Linda homenagem querida, adorei os poemas. Bjs.