Bem vindos!

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CASTRO ALVES canta minha terra, orquestrado pelo som das águas.


 O São Francisco         

LONGE, bem longe, dos cantões bravios,
Abrindo em alas os barrancos fundos;
Dourando o colo aos perenais estios,
Que o sol atira nos modernos mundos;
Por entre a grita dos ferais gentios,
Que acampam sob os palmeirais profundos;
Do São Francisco a soberana vaga
Léguas e léguas triunfante alaga!

Antemanhã, sob o sendal da bruma,
Ele vagia na vertente ainda,
— Linfa amorosa — co'a nitente espuma
Orlava o seio da Mineira linda;
Ao meio-dia, quando o solo fuma
Ao bafo morto de lia calma infinda,
Viram-no aos beijos, delamber demente
As rijas formas da cabocla ardente.

Insano amante! Não lhe mata o fogo
O deleite da indígena lasciva...
Vem — à busca talvez de desafogo
Bater à porta da Baiana altiva.
Nas verdes canas o gemente rogo
Ouve-lhe à tarde a tabaroa esquiva...
E talvez por magia à luz da lua
Mole a criança na caudal flutua.

Rio soberbo! Tuas águas turvas
Por isso descem lentas, peregrinas...
Adormeces ao pé das palmas curvas
Ao músico chorar das casuarinas!
Os poldros soltos — retesando as curvas, —
Ao galope agitando as longas crinas,
Rasgam alegres — relinchando aos ventos —
De tua vaga os turbilhões barrentos.

E tu desces, ó Nilo brasileiro,
As largas ipueiras alagando,
E das aves o coro alvissareiro
Vai nas balças teu hino modilhando!
Como pontes aéreas — do coqueiro
Os cipós escarlates se atirando,
De grinaldas em flor tecendo a arcada
São arcos triunfais de tua estrada!...
 
 A cachoeira

MAS SÚBITO da noite no arrepio
Um mugido soturno rompe as trevas...
Titubantes — no álveo do rio —
Tremem as lapas dos titães coevas!...
Que grito é este sepulcral, bravio,
Que espanta as sombras ululantes, sevas?...
É o brado atroador da catadupa
Do penhasco batendo na garupa!...

Quando no lodo fértil das paragens
Onde o Paraguaçu rola profundo,
O vermelho novilho nas pastagens
Come os caniços do torrão fecundo;
Inquieto ele aspira nas bafagens
Da negra suc'ruiúba o cheiro imundo...
Mas já tarde silvando o monstro voa...
E o novilho preado os ares troa!

Então doido de dor, sânie babando,
Co'a serpente no dorso parte o touro...
Aos bramidos os vales vão clamando,
Fogem as aves em sentido choro...
Mas súbito ela às águas o arrastando
Contrai-se para o negro sorvedouro...
E enrolando-lhe o corpo quente, exangue,
Quebra-o nas roscas, donde jorra o sangue.

Assim dir-se-ia que a caudal gigante
— Larga sucuruiúba do infinito —
Co'as escamas das ondas coruscante
Ferrara o negro touro de granito!...
Hórrido, insano, triste, lacerante
Sobe do abismo um pavoroso grito...
E medonha a suar a rocha brava
As pontas negras na serpente crava!...

Dilacerado o rio espadanando
Chama as águas da extrema do deserto...
Atropela-se, empina, espuma o bando...
E em massa rui no precipício aberto...
Das grutas nas cavernas estourando
O coro dos trovões travam concerto...
E ao vê-lo as águias tontas, eriçadas
Caem de horror no abismo estateladas...

A cachoeira! Paulo Afonso! O abismo!
A briga colossal dos elementos!
As garras do Centauro em paroxismo
Raspando os flancos dos parcéis sangrentos.
Relutantes na dor do cataclismo
Os braços do gigante suarentos
Agüentando a ranger (espanto! assombro!)
O rio inteiro, que lhe cai do ombro.

Grupo enorme do fero Laocoonte
Viva a Grécia acolá e a luta estranha!...
Do sacerdote o punho e a roxa fronte...
E as serpentes de Tênedos em sanha!...
Por hidra — um rio! Por áugure — um monte!
Por aras de Minerva — uma montanha!
E em torno ao pedestal laçados, tredos,
Como filhos — chorando-lhe — os penedos!!!...
.
Um raio de luar

ALTA NOITE ele ergueu-se. Hirto, solene.
Pegou na mão da moça. Olhou-a fito...
   Que fundo olhar!
Ela estava gelada, como a garça
Que a tormenta ensopou longe do ninho,
   No largo mar.

Tomou-a no regaço... assim no manto
Apanha a mãe a criancinha loura,
   Tenra a dormir.
Apartou-lhe os cabelos sobre a testa...
Pálida e fria... Era talvez a morte...
   Mas a sorrir.

Pendeu-lhe sobre os lábios. Como treme
No sono asa de pombo, assim tremia-lhe
   O ressonar.
E como o beija-flor dentro do ovo,
Ia-lhe o coração no níveo seio
   A titilar.

Morta não era! Enquanto um rir convulso
Contraíra as feições do homem silente
   — Riso fatal.
Dir-se-ia que antes a quisera rija,
Inteiriçada pela mão da noite
   Hirta, glacial!

Um momento de bruços sobre o abismo,
Ele, embalando-a, sobre o rio negro
   Mais s'inclinou...
Nesse instante o luar bateu-lhe em cheio,
E um riso à flor dos lábios da criança
   À flux boiou!

Qual o murzelo do penhasco à borda
Empina-se e cravando as ferraduras
   Morde o escarcéu;
Um calafrio percorreu-lhe os músculos...
O vulto recuou!... A noite em meio
   Ia no céu!

13 comentários:

angela disse...

Lindos poemas.
Bela escolha.
beijos

Imagem e Poesia disse...

Olá, amiga!
Este seu cantinho está a cada dia mais aconchegante. Belos poemas e fotos compõem este teu post. Perfeito!
Beijinhos e fica feliz
Ceiça

MARILENE disse...

Fez bem em resgatar. Depois de uma escolha tão linda, perceber que a postagem sumiu é motivo para ficar triste.

Valquiria

Se você me dedicar seu voto na eleição do "blog da semana", criado pelo Will, ficarei feliz. Aliás, só a indicação da Van (RETALHOS DO QUE SOU) já me alegrou bastante. A votação se inicia em 14/05/2011 às 12:00 HORAS e ficará aberta até o dia 21/05/2011 no BLOG DO SUPER WILL http://wwwwillblog.blogspot.com, idealizador do Selo.

Obrigada!
(umcanto-recantodaalma.blogspot.com)

Nilson Barcelli disse...

Três magníficos poemas, cada um deles melhor que os outros...
Gostei imenso das tuas palavras.
Querida amiga Valquiria, bom fim de semana.
Beijos.

Priscila Lima disse...

ahhh adorei a enegia dessa cachoeira... revigoarnte...

abraço das conchas belas.

mfc disse...

Senti a majestosidade da cachoeira!

Contos e Encantos num Canto do Mundo... disse...

Olá, Valquíria! Bom dia, minha amiga!!! Linda homenagem ao grande poeta!!! Sua página é um encanto poético e estou feliz em estar aqui... um beijo para você e tenha um ótimo domingo... LÜ

Carla Fernanda disse...

Lindíssimos poemas Valquíria!!
Obrigada pela ginástica espititual. Vou tentar exercitá-la sempre. Gostei!
Beijos e bom domingo querida!
Carla

Naty e Carlos disse...

Um amigo verdadeiro é alguém que chega quando todos os demais se vão, e se fica quando todos os demais desapareceram. Graças por ser meu amigo.
Uma boa semana
Bjs com carinho

Cantinho She disse...

Lindos demais! Amo água, cachoeira, mar...
Beijo, beijo!
She

Mari Amorim disse...

Querida!
Minha mãe,nasceu em Remanso,cidade que o Velho Chico banha,antes de morrer quero duas coisas,conhecer sua nascente em(MG),sua tranquilidade em Remanso.Obrigada pelo carinho da visita e o presente que deixou por lá!
Um abraço cheio de boas energias!
Mari

Mariazita disse...

Linda postagem.

Obrigada pela visita.

Uma feliz semana. Beijinhos

Baby disse...

Imagens lindas, poemas a condizer.

Após um ausência mais longa que o habitual, que nem a mim sei explicar...,volto ao convívio gostoso da blogosfera.
Dá-me notícias tuas.
Beijos.